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Estudos de Religião - No 27      
 
 Ficha Técnica
 ISSN 0103-801X
 Livro em português
 BROCHURA  
 1 Edição 2004
 254 pág. 16 x 23 cm


Para adquirir esta publicação, acesse o site do Espaço Educa - distribuidor exclusivo

R$ 22,00

         
  sumário    
         


Estudos de Religião
Ano XVIII - No 27


Apresentação

A história desta revista começou em 1983, com a publicação de Ciências da Religião, que já apresentava no primeiro número o que se tornaria um objetivo tenazmente perseguido ao longo de duas décadas: Revista semestral de estudos e pesquisa em Religião.

Dois anos depois, os seus editores adotaram o nome definitivo: Estudos de Religião. Todavia, várias dificuldades, com mais força nos primeiros anos de circulação, fizeram com que o ideal de periodicidade semestral desta revista não fosse atingido inicialmente. Mesmo assim, este número é um marco festivo para o Programa de Pós- Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, que edita esta revista. Completamos em 2004 o 20° ano de publicação. Por tal motivo, inserimos nesta apresentação um balanço, que traz consigo misturada uma boa dose de memória e esperança, para usarmos a expressão de um profeta hebreu, que um dia registrou ser preciso "trazer à memória o que pode alimentar a esperança."

Ora, uma rápida visão dos 26 números publicados no período de 1985-2004 permite encontrarmos um total de 235 artigos, cujos títulos e autores o leitor poderá, caso queira, consultar nas páginas finais deste número. Mas, cabe aqui relembrar que Estudos de Religião deu continuidade à revista Ciências da Religião, que circulou entre 1983 e 1984 com o apoio das Edições Paulinas. Os números daquela revista eram temáticos, e o primeiro deles tratou da Religiosidade popular e misticismo no Brasil, em 20 curtos artigos. Já o segundo número circulou com sete artigos e teve por título A vida em meio à morte num país do terceiro mundo.

Dos docentes pioneiros da primeira publicação, dois deles continuam ativos na docência da Umesp, diversos deles se aposentaram, outros escolheram diferentes rumos em sua respectiva carreira docente. Dos que se tornaram professores eméritos vale a pena citar Antonio Gouvêa Mendonça e Julio de Santa Ana. Outros dois docentes pioneiros já são falecidos: Prócoro Velasques Filho, em 1990, e Duncan Alexander Reily, que nos deixou há poucos meses, recebendo neste número uma singela, porém, significativa homenagem póstuma.

Assim acontece sempre nas instituições. As pessoas vão, às vezes voltam, mas somente os ideais bem fundamentados se perpetuam. Dentro desse espírito, o objetivo traçado em 1983 para a revista de Pós-Graduação do então IMS se perpetuou. Esse ideal não era outro senão o de compartilhar as pesquisas sobre religião levadas a cabo em várias partes do Brasil e da América Latina, fazendo circular em setores específicos da comunidade científica artigos que proporcionassem um amplo diálogo ao redor do fenômeno religioso, em particular do brasileiro. Àquela altura, no início dos anos 80, esse Programa já se apresentava como um interlocutor disposto a contribuir para o enriquecimento dos estudos de religião no Brasil e o fazia muito bem, atuando dentro dos paradigmas então reinantes, especialmente, os da Teologia da Libertação.

Em 1985, a revista semestral de estudos e pesquisas em religião assumiu o seu nome atual, Estudos de Religião. A partir do ano de 1998, alguns problemas que prejudicaram a sua periodicidade foram resolvidos, e Estudos de Religião passou a manter rigorosamente o seu caráter de publicação semestral, justamente pela sua inclusão no projeto editorial da Umesp. Com a vinda dos nossos assinantes, o compromisso com a comunidade de leitores interessados na abordagem científica do fenômeno religioso ficou definitivamente selado. É claro que a história desta revista sempre esteve e continuará atrelada à evolução temporal de sua moldura institucional, que começou no Instituto Metodista de Ensino Superior (IMS), apoiada pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião (IEPG), atingindo a sua maturidade na segunda metade dos anos 90, por ocasião da constituição da Universidade. Desde então, agora como uma publicação inserida dentro da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, Estudos de Religião se consolidou como instrumento de divulgação de um Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu, composto por Mestrado e Doutorado em Ciências da Religião, hoje avaliado pela Capes, que lhe atribuiu nota 5 no triênio 2001-2003. Cabe também ressaltar que esta Universidade já entregou à comunidade acadêmica docentes e pesquisadores num total de 320 mestres e 101 doutores em Ciências da Religião até dezembro de 2004. Dezenas desses mestrandos e doutorandos ofereceram contribuições importantes para o avanço do conhecimento em ciências da religião, as quais, antes de se transformarem em livros, foram sinalizadas em páginas de Estudos de Religião.

Por outro lado, esse marco cronológico está inserido em um novo contexto tecnológico proporcionado pelo desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, que colocam sobre as revistas científicas novos desafios, os quais não mais se resumem à publicação escrita. Por isso mesmo, esta revista, que atingiu a sua maturidade dentro de um cenário em que proliferavam os modos escritos de divulgação científica, tem hoje nos meios eletrônicos de publicação ou nas revistas eletrônicas os seus principais desafios. Conseqüentemente, surgem por todos os lados, aqui mesmo na Umesp, publicações eletrônicas ligadas direta ou indiretamente às tradicionais publicações escritas. Na realidade, são formas novas de se dar continuidade aos propósitos de divulgação científica, que, no nosso caso foram estabelecidos há mais de 20 anos.

A esta altura, podemos deduzir que Estudos de Religião participa dos resultados obtidos pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Umesp. Isso é verdade tanto no que se refere ao número de dissertações e teses, como também na quantidade de artigos e livros publicados por seus docentes e discentes, neste ou em outros periódicos dedicados ao estudo científico do fenômeno religioso. Por isso, acreditamos que já é tempo de se esperar por uma pesquisa séria e crítica, que tome como seu objeto de estudo as contribuições surgidas, nos limites deste Programa e de sua revista, para o incremento do estudo científico da religião em nosso país. Isso quer dizer que acumulamos um capital cultural passível de uma análise acadêmica tal como propõe Pierre Bourdieu em Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico (São Paulo, Editora Unesp, 2004, p.18-19). Em outras palavras, em determinados estágios da acumulação de capital cultural se torna possível uma análise das produções culturais de um dado campo, visto como um microcosmo relativamente autônomo, evitando-se assim uma postura baseada no "fetichismo do texto autonomizado" ou na vaidade que impede uma auto-crítica. Um bom ponto de partida seria uma reflexão sobre essa produção acadêmica, que leve a sério as alfinetadas de Antonio Flávio Pierucci naqueles que estudam a religião sob a capa do "rigor científico", mas que, na realidade, escondem os "interesses religiosos", criando uma área academicamente considerada por ele como "impura" [cf. Antonio Flávio Pierucci, "Sociologia da Religião - área impuramente acadêmica", in Sergio Micelli, (org.), O que ler na ciência social brasileira (1970-1995), São Paulo, Sumaré, 2002].

Em sua dimensão editorial, este número 27 está estruturado em duas partes principais: Na primeira parte, há o Dossiê "Protestantismos e Culturas" e, na segunda, um conjunto de Artigos. Já no título da primeira parte podemos observar o emprego do plural nos dois termos: "protestantismo" e "cultura". Não se trata de um mero acaso; muito pelo contrário, o plural reflete a riqueza, a complexidade e o desafio que os fenômenos religiosos cobertos pelo termo "Protestantismo" se apresentam aos pesquisadores. Cada vez mais, à medida que se aprofundam as pesquisas sobre o mundo dos "protestantes" ou dos "evangélicos", mais cresce a consciência de que estamos diante de uma multiplicidade tanto de Protestantismos como de Pentecostalismos. Para tornar ainda mais complexa a pesquisa nessas áreas do conhecimento, não somente os atores do campo religioso "protestante" se tornam sujeitos plurais, mas também a convivência de atores e instituições religiosas com a cultura humana se dá de múltiplas formas. O fenômeno da globalização da cultura, de suas interdependências e interpenetrações, da riqueza das formas em que ocorre a aproximação entre elas gera uma complexidade cultural dentro da qual protestantismos múltiplos e pluralistas tentam se adaptar tanto entre si no campo religioso como a outros fenômenos religiosos e culturais.

O primeiro artigo deste Dossiê faz parte das pesquisas empreendidas por Jean-Paul Willaime, que enfocam, nos estudos de Sociologia da Religião, a precariedade do Protestantismo. Desta vez temos o seu estudo "Do problema da autoridade nas igrejas protestantes pluralistas". O segundo artigo do Dossiê é de autoria do também conhecido cientista da religião europeu Jean-Pierre Bastian. A sua contribuição para o estudo do Protestantismo em sua pluralidade e singularidade toma como objeto de pesquisa "os pentecostalismos" (também no plural), ressaltando-os, contudo, como "afirmação de uma singularidade latino-americana". Os terceiro e quarto artigos derivam de pesquisas efetuadas a partir de dentro do mundo pentecostal latino-americano. No terceiro artigo, o jovem doutor em Teologia, pastor pentecostal mexicano, José Daniel Chiquete Béltran relaciona os "pentecostalismos latinoamericanos" com a "posmodernidad occidental", gerando, com sua reflexão, algumas considerações muito desafiantes dentro de um cenário de complexidade que envolve os dois termos que dão título ao artigo. No quarto artigo, Daniel Godoy e Cecília Catillo Nanjari, pastores pentecostais chilenos, dentro dos quadros de uma tradição biblicista e teológica fundamentadas na preocupação com os pobres e excluídos, assumem no título a tese: "No pentecostalismo o Espírito Santo favorece os pobres". O quinto artigo foi escrito por Reinaldo Olécio Aguiar, cujas idéias principais nele contidas fazem parte de uma pesquisa que resultou em sua tese de doutorado sobre as relações entre os protestantes brasileiros e o advento da secularização quanto à prática dos esportes, enfocando o grupo dos "Atletas de Cristo". O seu artigo "Os protestantes brasileiros e a secularização do tempo sagrado" trata das maneiras como as concepções e formas de se tratar o tempo sagrado, sobretudo a questão da "guarda do domingo", sofreram alterações. Este era um tema considerado "fundamental" para os evangélicos desde a época dos reformadores, puritanos e pietistas posteriores. Porém tais concepções e práticas se tornaram relativizadas e flexíveis nas últimas décadas do século XX. Desde então, poucos entre os evangélicos brasileiros, exclusão feita aos Adventistas do Sétimo Dia e aos Adventistas da Promessa, deixam de praticar, assistir ou acompanhar esportes (em especial o futebol) aos domingos. O sexto artigo deste Dossiê foi escrito por Douglas Nassif Cardoso e faz parte de um conjunto de pesquisas concluídas no doutorado sobre um casal de ingleses, Robert Kalley e Sarah Kalley, cujo pioneirismo marcou profundamente o Protestantismo brasileiro. Esse artigo toma o tradicional hinário protestante "Salmos e Hinos" e faz uma análise de seu processo de formação ainda no decorrer da parte final do Segundo Império. Um dos grandes convites que Cardoso deixa para os seus leitores é que a liturgia, o culto e os cânticos elaborados pelos seres humanos para cultuar os seus deuses, como toda produção cultural, precisam ser vistos à luz da época e do quadro histórico em que surgiram. Essa visão possibilita uma melhor avaliação histórica e sociológica de modernas formas de culto e de louvor, especialmente os "show-cultos" e a "música gospel", temas abordados no número anterior de Estudos de Religião.

Na segunda parte, o leitor encontrará uma coleção de quatro artigos. No primeiro artigo, João Décio Passos, um dos atuais vice-reitores da PUC-SP, desenvolve uma oportuna discussão, principalmente para as universidades confessionais, sobre "a legitimidade da teologia na universidade" brasileira. Para Passos há uma legitimidade que se ancora desde uma visão política até desaguar na acadêmica. No bojo dessa discussão está a atual situação gerada pela introdução dos cursos de teologia dentro do sistema universitário brasileiro gerido pelo Ministério da Educação. O segundo artigo, escrito por Gláucia Buratto Rodrigues de Mello, está baseado em pesquisas feitas pela autora nos últimos anos e tem por título: "Comunidades neoesotéricas: aspiração e ação para um mundo melhor". Esse artigo mexe com aquelas possibilidades analíticas que atribuem à New Age apenas uma vaga e difusa imagem de uma religiosidade individualista ou uma mera nebulosidade de difícil condensação cultural. Para Mello há comunidades de pessoas que compartilham da cultura, filosofia e religiosidade new age, formando por isso comportamentos e estilos comunitários fundamentados na esperança de que um mundo melhor venha substituir o mundo da "velha" era. No entanto, tais comunidades assumem uma dimensão esotérica, conservando-se uma sabedoria que fica à mercê de processos de iniciação. O terceiro artigo foi preparado por Carlos Eduardo Calvani e analisa um tema muito focado nas suas pesquisas, que são as relações entre a arte e a religião. Nesse artigo, que tem por título "Jesus no cinema", Calvani coloca como sub-título uma conhecida frase atribuída a Jesus: "Bem-aventurados os que não viram e creram." No final do artigo, o leitor é presenteado com uma pequena coleção de iconografias, as quais são empregadas no decorrer do artigo. Porém, o centro do artigo trata especialmente do recente filme de Mel Gibson A paixão de Cristo, que representa, segundo o seu argumento, tanto a perene atração que a imagem de Jesus exerce sobre as pessoas, como, também, a crescente dificuldade de as instituições devotadas à reprodução das imagens de Cristo exercerem uma espécie de controle ideológico sobre o que elas consideraram durante séculos ser objeto de seu patrimônio simbólico. O quarto artigo foi escrito por Milton Schwantes, um dos mais
conhecidos biblistas da América Latina, que faz uma análise exegética e hermenêutica dos textos bíblicos que se referem à controvertida ascensão de Davi ao trono do reino unido de Israel, por volta do 10° século antes de nossa era: "O davidismo messiânico na ótica de Judá: a história da ascensão de Davi (1 Samuel 16 a 2 Samuel 5)".

Na parte de resenhas, o leitor encontrará três delas. Uma foi escrita por Jonas Machado e trata do livro de John Ashton sobre a religião de Paulo e de suas relações com o xamanismo; uma segunda resenha, de Norbert H. C. Foerster, analisa o texto de Élio C. Serpa sobre a Igreja Católica e o poder no Estado de Santa Catarina, especialmente no período da guerra do Contestado; uma terceira resenha apresenta um texto de Daniel Boyarin, intitulado A radical Jew: Paul and the politics of identidy, que foi preparado por Alzir Sales Coimbra. Na parte intitulada registros, o leitor encontrará relação das dissertações e teses apresentadas ou defendidas neste Programa de Pós-Graduação, durante o segundo semestre de 2004. Em seguida, há uma homenagem ao falecido professor emérito deste Programa, Duncan Alexander Reily (1924-2004), escrita por seu colega de docência na Umesp durante anos Antônio Gouveia Mendonça. E, para conhecimento de todos e possível encomenda dos números atrasados de Estudos de Religião ainda restantes em estoque, apresentamos nas últimas páginas relação de todos os artigos publicados por estudos de Religião nestes 20 anos de publicação.

Também, nos cabe informar que, com este número 27, a atual Comissão Editorial encerra o seu mandato de quatro anos. Agradecemos o apoio que os leitores deram a esta Revista durante esse período, cujo objetivo continuou e continuará sendo o de divulgar pesquisas sobre o fenômeno religioso, buscando ultrapassar fronteiras e paradigmas estabelecidos, tentando fazer avançar o conhecimento nessa área e provocar debates. O número 28 virá, portanto, com modificações tanto em sua Comissão Editorial como na relação de Assessores Científicos Ad Hoc (Referees), a quem agradecemos o apoio dado durante o tempo em que os professores Archibald M. Woodruff, Etienne A. Higuet, Geoval J. da Silva, Leonildo S. Campos (Presidente) e Paulo A. S. Nogueira estiveram à frente de Estudos de Religião. Obrigado a todos e boa leitura deste número!

Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos
Editor do número 27, dezembro de 2004
Email: gipesp@metodista.br


S U M Á R I O


Apresentação

DOSSIÊ – PROTESTANTISMOS E CULTURAS

Do problema da autoridade nas igrejas protestantes pluralistas
Jean-Paul Willaime

Os pentecostalismos: afirmação de uma singularidade religiosa latino-americana
Jean-Pierre Bastian

Pentecostalismos latinoamericanos y postmodernidad occidental: reflexiones en torno a una relación complexa
José Daniel Chiquete Béltran

No pentecostalismo o Espírito Santo favorece os pobres
Daniel Godoy e Cecília Castillo Nanjari

Os protestantes brasileiros e a secularização do tempo sagrado
Reinaldo Olécio Aguiar

Salmos e Hinos: uma análise da formação do primeiro hinário protestante produzido no Brasil-império
Douglas Nassif Cardoso

ARTIGOS

A legitimidade da teologia na universidade: do político ao acadêmico
João Décio Passos

Comunidades neoesotéricas: aspiração e ação para um mundo melhor

Gláucia Burato Rodrigues de Mello

Jesus no cinema: “Bem aventurados os que não viram e creram”

Carlos Eduardo Calvani

O davidismo messiânico na ótica de Judá: A História da Ascensão de Davi
(1 Samuel 16 – 2 Samuel 5)
Milton Schwantes

Resenhas

ASHTON, J. The religion of Paul the Apostle

Jonas Machado

SERPA, Élio C. Igreja e poder em Santa Catarina

Norbert H. C. Foerster

BOYARIN, Daniel. A radical Jew: Paul and the politics of identidy
Alzir Sales Coimbra

Registros In memorian – Duncan Alexander Reily
Antônio Gouveia Mendonça

Dissertações e Teses (segundo semestre de 2004)

Estudos de Religião – Índice dos números anteriores Normas para publicação.