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Mudanças - Psicologia da Saúde - Vol. 12 - 2       
               
 
 

Ficha Técnica
ISSN 0104-3269
Livro em português
BROCHURA
1 Edição 2004
226 pág. 14 x 21 cm

R$ 20,00

Para adquirir esta publicação, acesse o site do Espaço Educa - distribuidor exclusivo

sumário

     
 

Apresentação

Os meandros conceituais
da análise da narrativa e outros trabalhos: uma apresentação

Um dilema do editor em ciência tem sido a dificuldade de recusar bons trabalhos, do ponto de vista científico, apenas porque não mostram afinidade direta com a missão do periódico, que se propõe a divulgar pesquisas, ensaios teóricos e revisão de literatura na área de Psicologia da Saúde. Sob essa denominação, são aceitos trabalhos cujos objetivos estão voltados para a qualidade de vida, cuidados paliativos e o papel do psicólogo clínico na área da saúde, com interesse em psicossomática, psicanálise, psicologia médica, psicologia clínica preventiva e neurociência.

Os artigos selecionados para compor este fascículo tratam de diversos temas em psicologia da saúde, desde as filigranas da interpretação e do processo de mudança psíquica e equilíbrio psíquico, no artigo de M. Célia Crepschi Coimbra, até o enfoque psicossocial contemplado nos artigos de Dimenstein, Vasconcelos e Leitão, intitulado Stress infanto-juvenil e vivência de rua.

O artigo de Coimbra mostra toda a densidade emocional da narrativa e os meandros conceituais de Antonino Ferro, psicanalista italiano que fez análise com analistas da Escola de Berlim e foi influeciado por H. Rosenfeld (borderline), Meltzer (dread world), Breman (crueldade e estreitamento mental) e Esther Bick (observação de bebês e análise de crianças). Em se tratando do processo psicanalítico, a terapeuta e o paciente representam dois personagens à procura de autor, que se confunde com a terapeuta. O paciente se confunde com o personagem. A defusão é dolorosa por que desfaz o estado fusional e implica na separação do eu-tu (M. Buber). Do ponto de vista psicopatológico, trata-se de um caso de personalidade múltipla, um pouco mais integrada do que o perso­nagem representado por Marcelo Mastroiani no filme dirigido pelo chileno A. Ruiz, intitulado Trois vie et une seule mort. O paciente de Maria Célia vive uma transformação provocada pela integração das várias personalidades em uma só, vivenciando assim a mes­midade, o sentimento de ser ele mesmo. Entretanto, os atributos da terapeuta para oferecer a continência (capacidade negativa, intuição, capacidade de reverie, função alfa) são produtos de sua formação acadêmica em um curso de especialização em psicoterapia psica­nalítica? Ou se trata de uma característica da personalidade da terapeuta, que pode assim demonstrar que o insight nem o conhe­cimento psicanalítico são tão curativos na psicoterapia psicanalítica quanto foi a experiência emocional transformadora vivida na relação com o paciente. Pare­ceu-me que um dos elementos responsáveis pelo efeito terapêutico da escuta das narrações do paciente foi a aceitação do papel de uma avó liberal, podendo desta forma pos­sibilitar as transformações via interpretações não saturadas da narrativa, criando um espaço virtual para a construção de objetos internos e de novas relações entre eles, bem como para a recu­peração de partes perdidas destes objetos. Usando a simbologia de Antonino Ferro, o paciente não poderia parar em casa. A terapeuta o atende e ele vai ficar em casa. Quais cômodos da casa são mais confortáveis para o paciente nos mo­mentos de análise por onde a dupla transitou? Será que não foi construída uma nova percepção do quarto onde nasceu, onde dormiu com a irmã, a sala, o banheiro (a intimidade). Da sala (violão) a dupla vai para o pé do fogão? Ele pode ficar? Que ameaças foram ame­nizadas no mundo interno do paciente? O início da língua portuguesa começa com as poesias rudimentares dos trovadores e Júlio Diniz foi o criador das primeiras cantigas de amigo, que marcam os primeiros escritos da língua portuguesa escrita. O paciente se anuncia como um trovador, alguém que vai criar jingles para se comunicar melhor com o mundo e, através dos contos e do violão, segundo sua analista, recupera o sentimento de identidade resultante de um processo menos fragmen­tado de interrelações contínuas.

Este aprisionamento da analista dentro de um roteiro pré-estabelecido, como se estivesse encenando uma peça ou uma cena de filme, funciona durante muito tempo como enactement e como uma comunicação silenciosa, a qual aos poucos é desvendada pela analista, que consegue desmontar essa organização patológica e escapar dessa prisão em que foi colocada para que o analisando ganhasse confiança de expressar sua intimidade. Na obra In pursuit of psychic change, de Edith Hargreaves Arturo Varchevker, no capítulo intitulado “Complacência em análise e vida cotidiana”, Ronald Briton discute as formas de identificação projetiva e enactement, e o trata­mento delas por Betty Joseph: (1) considerar a transferência como situação total, como o aspecto mais informativo da análise, e (2) avaliar a relação entre equilíbrio psíquico e mudança psíquica. A autora Maria Célia Crepschi Coimbra, em que pesem todos os meandros da narrativa de seu paciente, sempre se manteve fiel às regras fundamentais da psicoterapia psicanalítica: a interpretação da transferência como situação total e a busca da mudança psíquica.

Granato e Aiello Vaisberg também tratam da recente inovação metodológica trazida pela análise do discurso e a valorização da narrativa por trazer à tona o clima emocional vivido pelos perso­nagens e pelo narrador. Apoiando-se nas contribuições epistemo­lógicas de Politzer e nas idéias de Walter Benjamin sobre a narrativa, propõem pensar a geração de material de estudo como “narrativas psicanalíticas” que incluem tanto as manifestações dos pacientes como a pessoalidade do analista. Deste modo, o campo investigativo inicial se insere no contexto maior de trocas com outros clínicos pesquisadores que configuram um coletivo interlocutor.

Romero­_Rodriguez, ao estudar a dinâmica psicológica de mães grávidas adolescentes e de jovens mulheres com vida sexual ativa, concluiu que os conflitos da adolescência se sobre­põem aos da gravidez, cuja representação social se desenvolverá em outro momento.

Nahman Armony escreve um ensaio sobre a personalidade borderline leve, trazendo inovações na abordagem de adolescentes com transtorno de personalidade, especialmente segundo a teoria de Donald Winnicott.

Hara e Priszkulnik apresentam uma reflexão sobre a obesidade infantil, chegando a conclusão de que para compreender, tratar e prevenir a obesidade, é preciso considerá-la como uma conseqüência de múltiplas causas.

Um grupo de pesquisadores do Hospital das Clínicas de São Paulo, liderados em psicologia por Ana Gavião apresentam reflexões sobre o tratamento de pacientes com Ejaculação Precoce, em tratamento na Clínica de Urologia. Usou o Procedimento de De­senhos-Estórias para investigar experiências emocionais e relacioná-las com diferentes condições médicas. Os aprisionamentos repre­sentacionais são próprios à ejaculação precoce, expressão com­­preendida como manifestação de um “sujeito coletivo”, pois idealizações, angústias e inibições na esfera sexual e na própria identidade curiosamente se repetem no material clínico. O estudo conclui que há consistência no diagnóstico psicológico para auxílio específico de pacientes através de intervenções terapêuticas focais no contexto hospitalar.

José Tolentino Rosa
Presidente da Comissão Editorial

Sumário

Apresentação
José Tolentino Rosa

Stress infanto-juvenil e vivência de rua
Magda Dimenstein
Ana Karina de Freitas Vasconcelos
Monique Leitão

Tecendo a pesquisa clínica em narrativas psicanalíticas
Tania Mara Marques Granato
Tânia Maria José Aiello-Vaisberg

Relações objetais e equilíbrio psíquico em adolescentes gestantes e sexualmente ativas
Ana Cecilia Romero_Rodriguez

Contamo-nos histórias para nos dizer verdades
Maria Célia Crepschi Coimbra

Borderline e espaço potencial winnicottiano
Nahman Armony

Obesidade na criança: algumas considerações
Raquel Naomi Hara
Léia Priszkulnik

Escuta psicanalítica no setting hospitalar: o procedimento de desenhos-estórias como intermediador
Ana Clara D. Gavião
Frederico S. J. Costa
Ana Cristina de O. A. de Oliveira
Rosemeire Aparecida Nascimento
Mara Cristina S. de Lucia
Sami Arap

NOTICIÁRIO:

“Traumas” foi o tema de dois congressos de psicopatologia fundamental
Manuel Morgado Rezende

RESENHAS DE LIVROS
José Tolentino Rosa

Notas aos colaboradores
José Tolentino Rosa
A. Angelica Z.P. Sabadini