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Comunicação
e Sociedade
Ano 27 - N° 44
Editorial
O dossiê
desta edição é sobre o discurso e a prática
no ensino da comunicação.
Coordenado por Elizabeth Moraes Gonçalves, do Programa de Pós-
Graduação em Comunicação Social da Universidade
Metodista de São Paulo, tem
como preocupação central propiciar reflexões sobre
o novo cenário acadêmicopedagógico
de hoje, em que as instituições de ensino, de templos
do saber, se vêem
transformadas em espaços de intercâmbio de saberes.
O professor, outrora visto como mero reprodutor da educação
bancária, no
dizer de Paulo Freire, hoje repensa sua postura e passa a gerenciar as
informações,
ajudando o aluno a transformá-las em conhecimento. O desafio
de colocar em
prática uma nova metodologia no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem
nos cursos de comunicação social tem impulsionado as instituições
a assumirem
novas posturas coletivas e projetos comuns de ação integradora.
Isto, segundo Elisabeth Gonçalves e Adriana de Azevedo, no artigo
introdutório, exige investimento, tempo e comprometimento: só
a equipe coesa e
comprometida pode enfrentar o desafio de buscar o novo juntamente com
o aluno.
Assim, a prática do professor, quando condiz com o discurso,
altera-se significativamente,
pois se exige dele não apenas o conhecimento sólido do conteúdo
da área
na qual é especialista, mas um repensar da sua visão de
educação, de homem e de
mundo e uma nova postura na sua ação pedagógica em
sala de aula, partilhando
com os conteúdos das demais disciplinas um lugar de colaboração
e não de projeção.
Um projeto de ação pedagógica com estas características
alicerça-se em pressupostos
epistemológicos e metodológicos sempre revisados e
se caracteriza pela
ousadia da busca, da pesquisa e da transformação.
O dossiê complementa-se de alguma forma com o texto de José
Marques de
Melo, que, em outra seção, resgata a memória do campo
comunicacional na
América Latina, onde o ensino da comunicação teve
início em 1934, com o curso
de Jornalismo da Universidad Nacional de la Plata, na Argentina. Refletindo
sobre
os dilemas enfrentados pela comunidade acadêmica das ciências
da comunicação em
nosso continente durante o século XX, o autor identifica os obstáculos
a serem
removidos no sentido de garantir a sintonia entre as metas da universidade
e as
demandas da sociedade.
Mencione-se, a propósito, que esta edição de Comunicação
& Sociedade
entra em circulação na primeira semana de setembro, no momento
em que a
Intercom está realizando, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
o
XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação,
cujo tema central é
exatamente o ensino da comunicação.
Ao fundamentar a escolha dessa temática para seu evento, a Intercom
evoca
os esforços de pioneiros como Costa Rego, Carlos Rizzini, Danton
Jobim, Pompeu
de Souza e Luiz Beltrão. Eles esboçaram metodologias
de ensino e construíram
estratégias de ensino-aprendizagem sintonizadas com as especificidades
da nossa
sociedade e da nossa cultura, além de buscarem correspondência
com o ethos das
profissões midiáticas (jornalismo, publicidade, relações
públicas, radialismo,
teledifusão, cinematografia).
Contudo, argumenta a Intercom, essas experiências mestiças
sempre
esbarraram na dificuldade de sua replicação ou reprodução
por instituições da mesma
espécie, em outros quadrantes da nossa geografia, tendo em vista
a política educacional
centralizadora mantida pelo Estado brasileiro no espaço
universitário, impedindo ou
inibindo inovações. Em compensação,
nas últimas três décadas, as estruturas de pósgraduação
geridas nacionalmente pela Capes e os programas de pesquisa capitaneados
pelo CNPq foram inspirados por diretrizes mais abertas. (...) Mudanças
no
panorama, tanto da graduação quanto da pós-graduação,
começaram a surgir e a
frutificar depois da aprovação da nova Lei de Diretrizes
da Educação Nacional, que
instituiu a liberdade curricular e a autonomia universitária,
entre outros dispositivos
democraticamente fundamentados. (...) Trata-se, porém, de
experiência muito recente,
ainda não suficientemente configurada, persistindo no horizonte
impasses acadêmicos
de vários matizes, conforme documenta a antologia organizada por
Cicília Peruzzo
e Robson da Silva, Retrato do ensino em comunicação
no Brasil: análise e
tendências (Intercom/Unitau, 2003).
A Intercom conclui dizendo que, para superar esses impasses, torna-se
urgente
integrar ensino e pesquisa, graduação e pós-graduação,
nos projetos pedagógicos das
nossas faculdades de comunicação. E, desta maneira, ultrapassar
o reboquismo
brasileiro em relação ao conhecimento comunicacional e midiático
vigente nos países
hegemônicos, logrando sintonizar os conteúdos do nosso ensino
com a riqueza do
conhecimento inovador e renovador estocado nas pesquisas produzidas em
território
nacional. Da mesma forma, torna-se fundamental ampliar e dar regularidade
ao
diálogo crítico entre as escolas de comunicação,
as empresas, o setor público e as
corporações midiáticas, tanto as patronais quanto
as trabalhistas, buscando reduzir
as lacunas existentes entre o ensino, a pesquisa e as profissões.
Debater essas e outras questões, esboçando uma agenda para
a atualização
histórica das instituições que gravitam no universo
das ciências da comunicação,
constitui o propósito do XXVIII Ciclo de Estudos Interdisciplinares
da
Comunicação, evento central do Intercom 2005. Sintonizado
com a Intercom, o
Póscom-Umesp procura, com o dossiê Discurso e prática
no ensino da comunicação,
contribuir para a construção desse canteiro, acrescentando
a ele mais um
punhado de sementes.
Os editores
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