|
||||||||||||
| Em Instantes | ||||||||||||
![]() |
Ficha
Técnica R$ 25,00 |
|||||||||||
|
Apresentação A inauguração da televisão no Brasil Década de 1960: a chegada do video tape Década de 1970: consolidação da liderança da Rede Globo Década de 1980: TV em clima de cassações e concessões Década de 1990: TV de sinal aberto busca seu caminho em tempo de globalização Observações Finais Sobre os autores
Essa abordagem das grandes feições da programação da TV abrange apenas os canais abertos de teledifusão no país e enfoca as categorias e gêneros dos programas. Perseguindo esse objetivo, inicialmente selecionamos uma semana a cada cinco anos e levantamos a programação nesse período. A semana escolhida foi a terceira semana de março, ou melhor, a semana que começasse na primeira segunda feira depois do dia 15 de março, inclusive. Os dados foram coletados a partir do jornal O Estado de São Paulo. Essa fonte foi escolhida pela credibilidade do jornal e também por sua estabilidade de diagramação e editoração, o que facilitou o levantamento. A utilização de um jornal impresso como fonte básica de levantamento de dados acarreta duas limitações que são: 1) Não verificamos a programação efetivamente posta ao ar, mas sim aquela que foi anunciada; 2) Não descontamos dos cálculos de tempo de programação aquele gasto em publicidade. É preciso explicitar também que, como estamos utilizando um jornal paulistano como principal fonte, nossos dados dizem respeito à programação de TV na cidade de São Paulo. * Complexa, dinâmica e repleta de nuanças, a questão dos gêneros, central nas reflexões sobre arte e cultura, se impõe e solicita sua especificidade no âmbito da comunicação de massa. Enfocando o tema na esfera específica da televisão, Mauro Wolf apresenta a seguinte definição geral: “O conceito de gênero indica modos culturalmente estabelecidos e reconhecíveis de comunicação, funcionando no interior de determinados grupos sociais ou comunidades lingüisticas”.1 Sintética, essa definição contempla três pontos que nos parecem essenciais: 1) salienta o caráter social e portanto dinâmico do fenômeno, pois o mesmo tem sua validade em grupos sociais determinados; 2) aponta a origem não normativa da categorização dos gêneros, enfatizando que eles foram culturalmente estabelecidos; 3) salienta que a questão dos gêneros indica modos reconhecíveis e funcionais de comunicação, ou seja, afirma tratar-se basicamente de uma questão pragmática. Esses “modos culturalmente estabelecidos e reconhecíveis de comunicação” atuam nos processos comunicativos, tanto do ponto de vista da produção quanto da fruição. Essa atuação, que pode se dar de maneira consciente ou inconsciente, explícita ou implícita, funciona como um “‘contrato’ entre o emissor e o receptor de forma a tornar operacionalizáveis os sistemas conexos de expectativas e permitir, portanto, tanto o respeito quanto o desvio dos modos aceitos e institucionalizados da ação comunicativa”.2 Trata-se, pois, de um encontro marcado em que ambas as partes pré declaram suas intenções; trata-se, para citar uma expressão já clássica cunhada pelo lingüista alemão R. Jauss, da construção de um “horizonte de expectativa”.3 Tradicionalmente apregoa-se a distinção da programação televisiva em três grandes gêneros: educação, informação e entretenimento. Obviamente trata-se apenas de um indicativo da intencionalidade predominante, tanto para o produtor quanto para o espectador, em cada programa, pois, a rigor, especialmente em televisão, esses gêneros não são facilmente delimitáveis, nem mutuamente excludentes. Em seu livro Para uma Leitura Crítica da Comunicação4, José Marques de Melo, resumindo e apresentando uma grande pesquisa realizada em 1978 pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Comunicação (Abepec), reafirma os três grandes blocos de intencionalidade em relação aos programas televisivos- entretenimento, informação e educação - mas prefere denominá-los categorias televisivas, reservando o termo gênero para modos comunicativos mais delimitados que agrupam-se nesses três grandes feixes, resultando o seguinte esquema: Categoria: Informativo. Gêneros que a compõem: telejornal, reportagem, entrevista, documentário etc. Categoria: Entretenimento. Gêneros que a compõem: novela, cinema, teatro, teleplay, seriados, desenho animado, música popular, música erudita, humorismo, esporte, programa de auditório, variedades etc. Categoria: Educativo. Gêneros que a compõem: cursos, ciências, artes, esportes, civismo etc. Categoria: Especial. Gêneros que a compõem: infantis, minorias étnicas, religião, agrícolas etc. Não podemos deixar de observar que nesse quadro os gêneros não correspondem a classes abordáveis por um único princípio taxionômico. A caracterização de um gênero pode se dar, para citar alguns critérios, tanto pelo seu suporte físico (ex.: filme); quanto pela ênfase em uma característica narrativa (ex.: séries); quanto pela situação de produção (ex.: programa de auditório); quanto pela temática (ex.: esporte) – assim sendo, como um mesmo produto televisivo pode agregar-se a várias categorias de programação. Salientemos que os gêneros não são rigidamente delimitados e nem mutuamente excludentes, podendo se imiscuírem, se referirem e se parodiarem mutuamente. A observação de programas atuais, induziu a dois prognósticos antagônicos a respeito dos gêneros nos meios de comunicação de massa. Alguns teóricos incitados, por exemplo, pela presença cada vez maior da reconstrução romanceada nos telejornais e documentários, tendem a apontar, em graus diferentes, a dissolução dos gêneros como inevitável.5 Por outro lado, uma posição contrária, afirma que devido ao aumento vertiginoso das opções de programas, devido à expansão na multiplicidade da produção e oferta de produtos da indústria do lazer e entretenimento, os gêneros têm uma função central e tendem a se manter pois atuam como redutores da complexidade aparentemente instaurada nesse múltiplo. São balizas, pontos de orientação fáceis e rápidos de reconhecimento cada vez mais necessários para que o receptor se localize no crescente mar de emissões. Defendendo essa postura, Mauro Wolf afirma: “A infração e a transformação, a assimilação e a proliferação dos gêneros são fenômenos internos ao próprio sistema dos gêneros: representam o seu aspecto dinâmico e não algo externo.(...). Pode-se dizer ainda que a proliferação dos novos gêneros mistos acaba por enfatizar a centralidade dos gêneros na comunicação televisiva, fazendo com que sejam não menos necessários, e sim mais difíceis de reconhecer e classificar”.6 Essa afirmação do reforço dos gêneros no quadro de uma crescente oferta de programas televisivos toma força e ganha dividendos a seu favor, se levarmos em conta que os programas televisivos inserem-se em emissoras, canais, que por sua vez também têm identidades próprias. Nesse sentido, Raymond Willimas, em um estudo que enfocou canais televisivos ingleses e americanos, depois de distinguir as televisões comerciais e as de serviço público, afirma porém que, sobreposta a esta distinção básica, cada canal tem o seu perfil de “peso cultural” e de público predominante. Essa identidade de cada emissora conduziria à idéia de um “ambiente cultural” – “ele próprio relacionado com características evidentes de educação e vida diária e com características de classe social”.7 Assim o mesmo gênero de programa ou a mesma temática em canais diferentes, apresentaria e geraria expectativas de “pesos culturais diferentes” conforme o perfil do canal em que ele se insere. Nesse sentido, Raymond Williams propõe que, mais apropriado que se falar em grade de programação seria utilizar-se o termo fluxo de programação. Para nós, brasileiros, a afirmação de Raymond Williams de identidades de fontes de emissão é algo bastante concreto e cotidiano, até a nossa linguagem cotidiana incorporou expressões como: “mais lacrimosa que novela do SBT”, indicando o sentimentalismo e o apelo “popularesco” da emissora, ou “padrão Globo de qualidade” indicando um certo perfil, especialmente estético, vigente nas produções da rede de televisão hegemônica no país, em termos de audiência, há mais de vinte anos (na realidade esse “padrão” é algo que variou muito ao longo dos anos e conforme o horário e o dia em questão e essa expressão pode também ser usada de maneira negativa indicando algo edulcorado principalmente quando se refere a telejornais). A pesquisa que apresentamos a seguir levanta dados e traça observações sobre categorias e gêneros dos programas na TV brasileira entre 1965 e 2000. Trata-se de rever alguns passos desse percurso histórico. O futuro, por mais que nos reserve surpresas, trará as marcas desse passado. 1 WOLF, Mauro. “Generi e Mass Media” IN BARLOZZETTI, G.. Il Palinsesto, Milão, Ed. Frannco Angeli, 1986, p. 169. 2 Idem, p. 170. 3 JAUSS, Hans Robert. “Littérature Medievale et Theorie des Genres” IN Poetique n. 1/70, Paris: Seuil. 4 MELO, José Marques de. Para uma leitura crítica da Comunicação, São Paulo: Paulinas, p. 77 a 95. 5 Como um exemplo podemos citar a posição de Umberto ECO na interessante discussão proposta por ele em “TV: La Transparence Perdue” In La Guerre du Faux. Paris: Grasset, 1985. 6 WOLF, Mauro. Op. cit., p. 171 . 7 WILLIAMS, Raymond. Television. Technology and Cultural Form. Inglaterra: Wesleyan Univ. Press, 1992, p. 80.
Nota
|
||||||||||||