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Apresentação
Uma pesquisa é uma busca de compreensões sobre algo. Nessa busca orientamo-nos por uma questão central que foca determinado fenô-meno e que nos move em direção às nossas metas. E nesse movimento construímos, desconstruímos, reinventamos e descobrimo-nos sujeitos históricos, responsáveis e éticos que em sua busca assumem o compromisso consigo mesmo e com o outro. A descoberta desse caminho é que nos faz pesquisadores e pesquisadoras.
Este livro é resultado da pesquisa de doutorado da autora, que tem como título “O desenvolvimento do pensamento econômico em crianças: avaliação e intervenção em classes de 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental”. Algumas questões moveram a investigação: o que pensam as crianças brasileiras sobre os fenômenos econômicos? Em que nível de alfabetização econômica elas se encontram? Qual o papel da escola nesse processo? Foi em busca de respostas para essas indagações que a autora iniciou seus estudos, num esforço de compreender o que pensam as crianças brasileiras sobre alguns temas econômicos e qual o papel da escola na construção de tais conceitos. É certo que estamos frente a uma encruzilhada educativa que requer uma mudança profunda em nossas próprias representações referentes ao mundo social, não somente as crianças estão enfrentando a tarefa de construir o conhecimento social; também nós os adultos devemos enfrentar a tarefa de desconstruir nossos velhos esquemas para construir outros novos. (DENEGRI, 1998, p. 53)
O trabalho ora apresentado pretende proporcionar insumos para reflexões e debates sobre a área e permitir que possamos conhecer um pouco mais sobre as formas de representação do mundo financeiro, um dos pilares que sustentam o mundo social. Sobre este tema, também é importante que nos situemos.
A situação social e cultural na qual se inscreve o desenvolvimento do nosso país é infinitamente complexa. O capitalismo industrial de produção foi substituído pelo capitalismo financeiro, que privilegia o mercado consumidor. A lógica do consumo, em um mundo globalizado, se instalou por meio das novas tecnologias de comunicação e informação e alcançou todos os setores sociais, atingindo especialmente crianças e adolescentes. Observamos uma importante transformação: o sujeito, antes produtivo, deu lugar agora a um indivíduo consumidor, produto da expansão capitalista neoliberal, participante de uma sociedade/Estado que estende as leis de mercado a toda atividade humana, acompanhada de fortes processos de exclusão.
Para entender o mundo contemporâneo, precisamos explicar o mundo governado pelo capital financeiro e pela sociedade de consumo na qual a economia se transformou numa questão cultural e que tem as diferentes formas de comunicação, em especial a propaganda, como mediadoras entre a cultura e a economia. Nesse universo, a mídia encontrou no público infantil seu maior consumidor: as crianças são expostas a anúncios comerciais que criam desejos e incentivam o consumo. Como afirma Jameson (2001), “a cultura do consumo é de fato parte integrante do tecido social e dificilmente pode ser destrinçado dela” (p. 27). Essas relações estabelecidas entre o cultural e o econômico são indicadoras da chamada “pós-modernidade”, hoje tão discutida quanto a globalização e que marca o nosso presente histórico.
Vivemos um tempo de profundas desigualdades sociais, retratadas em várias imagens e números. Segundo as Nações Unidas, no seu Relatório sobre o Desenvolvimento Humano:
O 1% mais rico do mundo aufere tanta renda quanto os 57% mais pobres. A proporção, no que se refere aos rendimentos, entre os 20% mais pobres no mundo aumentou de 30 para 1 em 1986, para 60 por 1 em 1990 e para 74 para 1 em 1999, e estima-se que atinja os 100 para 1 em 2015. Em 1999-2000, 2,8 bilhões de pessoas viviam com menos de dois dólares por dia, 840 milhões estavam subnutridos, 2,4 bilhões não tinham acesso a nenhuma forma aprimorada de serviço de saneamento, e uma em cada seis crianças em idade de frequentar a escola primária não estava na escola. Estima-se que cerca de 50% da força de trabalho não-agrícola esteja desempregada ou subempregada.
No Brasil a situação não é diferente. Em recente pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre Orçamentos Familiares (Maio, 2004), os resultados mostraram que, em 30 anos, importantes mudanças ocorreram nos hábitos de consumo dos brasileiros. Alguns dados do estudo nos levam a pensar sobre a importância de um programa de alfabetização econômica para as escolas de Educação Básica.
Um primeiro aspecto a destacar do relatório do IBGE relaciona-se ao fato de que 85% das famílias sentem alguma dificuldade para chegar ao fim do mês com seus rendimentos. Essa dificuldade não se diferencia muito entre as regiões urbana (32,2%) e rural (26,1%) e é maior entre as famílias com rendimento mensal de até R$ 400,00, entre as quais mais da metade (51,5%) afirmam ter muita dificuldade.
Outro aspecto significativo diz respeito à despesa média das famílias brasileiras. Em quase todas as classes de rendimento, o valor médio é maior que o valor do rendimento. Nas classes cujos rendimentos chegam até R$ 400,00, as famílias ganham em média R$ 260,21 e gastam R$ 454,70. Essa discrepância aponta para um provável endividamento de algumas famílias. Isso não ocorre com as classes que têm o rendimento acima de R$ 3.000,00: essas famílias informaram que gastam, em média, menos do que recebem.
É importante também destacar que entre as despesas que mais pesam para as famílias brasileiras, está a habitação, que representa 29,6% da despesa total, a alimentação (17,10%) e o transporte (15,19%). Essas despesas de consumo representam hoje 82,41% da despesa total média mensal familiar. Esse percentual mostra um significativo aumento em relação há 30 anos, quando o valor era de 74,59%, conforme dados do IBGE. O restante das despesas é distribuído entre assistência à saúde, vestuário, educação, recreação e cultura, higiene e cuidados pessoais, serviços pessoais e despesas diversas2.
Mesmo compreendendo que esses dados não podem ser analisados fora de um contexto social e político que define as distorções sociais encontradas em nosso país, eles podem nos alertar para a necessidade de termos indivíduos mais críticos e conscientes da sua realidade e capazes de agir no sentido de buscar melhores condições de vida.
Diante deste quadro, que retrata tão bem a realidade do que está ocorrendo em nosso país e no mundo, surgem posições que buscam o enfrentamento. Uma delas, que tem como objetivo “transformar a economia para que esta contribua para a construção de uma sociedade de solidariedade e de um desenvolvimento duradouro” (ROUILLÉ D’ORFEUIL, 2002, p. 12), se caracteriza por experiências como o movimento das finanças solidárias ou economia solidária, hoje comum em várias regiões da Europa e que chega também ao Brasil.
Na abertura do Fórum Mundial de Educação, realizado em Porto Alegre em julho de 2004, István Mészáros apresentou suas ideias sobre o papel da escola na construção de outro mundo, cuja referência seja o ser humano e que realize as transformações políticas, sociais, econômicas e culturais necessárias com vistas a uma ordem social qualitativamente diferente. Sua proposta de educar para além do capital significa pensar uma sociedade que alcance esse sentido, libertando o ser humano das amarras do determinismo neoliberal, num processo contínuo e emancipador. Para ele, “apenas a mais ampla das concepções de educação nos pode ajudar a perseguir o objetivo de uma mudança verdadeiramente radical, proporcionando instrumentos de pressão que rompam a lógica mistificadora do capital” (MÉSZÁROS, 2005, p. 48).
Olhando o cenário atual, é possível afirmar que existiram alguns avanços: movimentos sociais e associativistas mais organizados e programas de defesa do consumidor atendendo à comunidade de uma maneira geral, embora controlados pelo Estado, como afirma Demo (2001). Entretanto, para ele, “os movimentos sociais não tocam a raiz dos problemas, oferecendo evoluções em si pertinentes, mas superficiais”(p. 10). Disso podemos inferir que algo mais precisa ser feito e que tenha o poder de impactar a sociedade e impulsionar o cidadão a uma consciência crítica sobre as formas de se organizar e de intervir, mesmo que de maneira alternativa, no mercado.
É para a formação desses novos atores econômicos que este trabalho se volta, na compreensão de que a melhoria de vida das pessoas acontece mediante a inclusão social, a consciência política e financeira e uma ação reflexiva que leve a maior participação social. No entanto, é necessário que as ações formativas iniciem-se desde cedo por intermédio da construção de espaços diferenciados que fortaleçam a cooperação e a construção de relações econômicas mais conscientes, lembrando que as crianças são sujeitos sociais e históricos, portanto, marcadas pela complexidade e pelas contradições da sociedade em que estão inseridas. Tais ações devem levar à solução de questões que inquietam os que atuam na área: como a criança percebe os fenômenos financeiros? A partir de que idade ela é capaz de compreendê-los? Que fatores estão relacionados a essa compreensão? Qual o papel da família e da escola nessa aquisição? Como trabalhar com as crian¬ças de maneira que sejam consideradas em seus contextos de origem, seu desenvolvimento e o acesso aos conhecimentos, direito social de todos, em direção a uma possível alfabetização econômica? Enfim, como ajudá-las a serem cidadãos mais conscientes do seu papel no mercado e do seu poder na constituição de uma sociedade mais solidária e justa?
De acordo com Denegri (2003b), o estudo da compreensão que a crian¬ça e o adolescente têm acerca da realidade econômica e dos conceitos sobre o uso, a origem e a circulação do dinheiro é importante porque auxilia na compreensão dos processos mais gerais por meio dos quais os sujeitos constroem um modelo coerente e organizado do mundo social em que vivem.
Também é importante destacar que compreender como as crianças e os adolescentes concebem a realidade econômica ajuda na construção de estratégias educativas para o desenvolvimento de programas de socialização ou alfabetização econômica, aspecto altamente relevante nos dias de hoje.
SUMÁRIO
PREFÁCIO
A HISTÓRIA QUE DEU ORIGEM À PESQUISA
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO I: O PROBLEMA QUE DEU ORIGEM À BUSCA
1.1. A importância da compreensão do mundo econômico
1.2. A definição dos objetivos e o caminho a percorrer
CAPÍTULO II: O MARCO TEÓRICO
2.1. A representação do mundo na criança: um enfoque psicogenético
2.2. O Conhecimento Social
2.3. A compreensão do mundo econômico
2.4. A psicologia econômica
2.5. A socialização econômica
2.5.1. Estudos sobre a compreensão econômica
2.5.2. Estudos sobre a socialização econômica
2.6. Educação Econômica
2.6.1. As iniciativas de Educação Econômica
2.6.2. A educação do consumidor no mundo
2.6.3. A Educação Econômica no mundo
2.6.4. A educação do consumidor no Brasil
2.7. O Programa de Intervenção em Educação Econômica “Educando para o consumo consciente”
2.7.1. Bases do Programa: transversalidade e interdisciplinaridade
2.7.2. O trabalho com projetos
CAPÍTULO III: A PESQUISA
3.1. A metodologia
3.2. Os participantes
3.3. Os instrumentos
3.4. Os procedimentos
3.5. O Programa de intervenção
3.5.1. A capacitação dos professores
3.5.2. O desenvolvimento dos projetos
3.5.3. A avaliação
CAPÍTULO IV: APRESENTAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
4.1. A análise dos dados
4.2. As entrevistas clínicas
4.3. A Escala de Alfabetização Econômica em Crianças – TAE-N
4.4. A apresentação e a discussão dos resultados da Escala TAE-N
4.5. A discussão dos resultados
CAPÍTULO V: CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXO
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